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  • Through Windows
    03.07.2020—19.09.2020
    INAUGURAÇÃO: 02.07.2020
    Exposição colectiva com curadoria de Miguel Mesquita



    Vista geral da exposição “Though Windows”
    UMA LULIK_ _
    Fotografia: Bruno Lopes





    Vista geral da exposição “Though Windows"
    UMA LULIK_ _
    Fotografia: Bruno Lopes





    Vista geral da exposição “Though Windows"
    UMA LULIK_ _
    Fotografia: Bruno Lopes





    Vista geral da exposição “Though Windows"
    UMA LULIK_ _
    Fotografia: Bruno Lopes





    Em 1985 a Microsoft lançava o Windows 1.0, um sistema operativo baseado numa interface gráfica, cuja disseminação foi um dos momentos fundamentais na viragem para a revolução tecnológica e para a democratização do acesso à linguagem informática. Desde então, “janelas” definiram a forma como nos relacionamos com os conteúdos digitais. A possibilidade de navegar entre janelas, correndo informações diversas em simultâneo, generalizou uma relação entre imagens que evoca uma coleção warburguiana[.M1][JR2] , permitindo estabelecer hierarquias de informação, através do dimensionamento e da sobreposição, ao mesmo tempo que promove uma simultaneidade de acções.

    Quer enquanto elemento arquitectónico, quer enquanto conceito, a janela encontra-se profundamente ligada à condição moderna do Homem. A fotografia, por exemplo, surge como a primeira grande janela tecnológica, possibilitando o acesso a realidades muitas vezes inacessíveis; uma janela para geografias e tempos distintos. No entanto, afastada de concepções metafóricas, a janela é um elemento que se torna fundamental para o desenvolvimento do consumismo moderno, distinguindo a noção de consumo da de aquisição. Window shopping, que na língua portuguesa se traduz na expressão desvirtuada e menos sofisticada “ver montras”, é sintomático desta condição na qual o consumo se dá, através do olhar, por uma fantasia de aquisição que não se materializa necessariamente em compra. A janela, impedindo o contacto físico, permite o contacto emocional.

    Esta acção de olhar através de uma barreira como forma de realização individual pressupõe, contudo, uma lógica fetichista, como dá a entender Walter Benjamin em Die PassagenWerk, quando reconhece que na mentalidade do consumo, tudo o que é desejado pode ser transformado em mercadoria enquanto fetiche-em-exposição. É essa relação fetichista que mantém o espectador encantado mesmo quando a capacidade de posse está fora do seu alcance. O valor representativo de um objecto supera, assim, o seu valor de uso ou de produção.

    Enfatizando a qualidade fetichista do bem-em-exposição, a janela compele a uma atitude voyeurista que é encorajada por um sentimento de protecção. Vindo de um lugar de conforto, espreitar pela janela toma formas obsessivas, com manifestações variadas tais como uma observação despreocupada, um ritual quotidiano de sociabilidade, um escapismo mental que acompanha um estimulo visual, mas também como invasão do espaço do outro, ao modo da “Janela Indiscreta” de Alfred Hitchcock. Através da janela vemos o outro mas o outro nem sempre nos vê.

    Esta sensação de conforto e segurança assume-se como factor para a proliferação do contacto com janelas. Com o desenvolvimento de tecnologias que acompanham a difusão da nossa existência online, os ecrãs tornaram-se janelas para o mundo digital, dando-nos acesso a uma multiplicidade de conteúdos que podemos gerir e organizar, à nossa medida e no nosso conforto. Através dos ecrãs existimos numa realidade virtual — consumindo imagens, bens, produtos e informação — que exploramos e na qual participamos em virtude de um sentimento de protecção.

    Com a actual crise provocada pela pandemia do Covid-19 a nossa relação com janelas tornou-se gradualmente mais evidente. O mundo virtual converteu-se numa realidade necessária, quer para sustentar uma condição consumista, quer para permitir escapes sociais e culturais ou simplesmente para criar espaços de alienação. Os períodos de quarentena aumentaram a nossa dependência das janelas para o mundo virtual, intensificando a fusão entre o mundo físico e o digital. Simultaneamente, as interacções físicas passaram a estar mediadas por janelas tanto em interacções familiares e de amizade como profissionais e laborais. Filhos e netos visitam pais e avós através de janelas; novas janelas são instaladas entre nós, todos os tipos de paredes translúcidas que separam clientes entre si, e clientes de funcionários. O contacto físico ficou limitado, o contacto digital tornou-se cada vez mais uma condição da existência humana e uma previsão inevitável [JR3] [.M4][JR5] da hibridação.

    Remetendo para a imagem de um ecrã de computador, as obras da exposição apresentam-se como planos sobrepostos uns aos outros, hierarquizando e complementando informação entre elas, permitindo apenas uma leitura total através da janela. Tanto em obras como em configuração, a exposição invoca a temática da janela como espaço de mediação de interacções físicas e digitais. Assim, tal como a selecção das obras teve como contingência a circunstância de confinamento imposta pela situação actual, também o seu acesso se encontra limitado a um ponto de vista e a uma organização.

    A sobreposição de obras numa estrutura aparentemente caótica e desorganizada, ao mesmo tempo que remete para um ‘Ambiente de Trabalho’ digital faz também referência às práticas experimentais do Independent Group que, nas exposições que apresentavam no ICA (Londres) nos anos 50, propunham uma revisão da noção de cultura que sujeitava todos os tipos de actividade humana a um julgamento e atenção estética — aquilo que hoje se preconizou na relação das redes sociais, que desenvolvem uma cultura visual apoiada numa lógica de consumo traduzida em Likes.

    – Miguel Mesquita, Julho 2020



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