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  • Entre o polegar e o indicador
    25.09.2020—15.11.2020
    Inauguração: 23.09.2020



    Faz aí a tua casa

    Vista da exposição na UMA LULIK__
    Fotografia: Bruno Lopes





    Depois muito, depois pouco, depois nada

    Vista da exposição na UMA LULIK__
    Fotografia: Bruno Lopes





    Um momento de trégua

    Vista da exposição na UMA LULIK__
    Fotografia: Bruno Lopes





    Campo de Flores

    Vista da exposição na UMA LULIK__
    Fotografia: Bruno Lopes





    Há ainda promessa

    Vista da exposição na UMA LULIK__
    Fotografia: Bruno Lopes





    As obras de Carolina Serrano (Funchal, 1994, com licenciatura em escultura e mestrado sob o título “A dimensão espiritual da escultura através da obra de XIX artistas“) revelam uma conjugação entre competência, sensibilidade e rigor que é sempre muito animador mas nem sempre fácil encontrar em artistas muito jovens que terminam um período de formação académica.

    Os balanços e equilíbrios entre a competência técnica na utilização dos materiais e o apelo das inspirações e aspirações emocionais e intelectuais, são a base da construção dos métodos e processos de trabalho, que virão a definir a trajetória e conseguimentos do desenvolvimento de uma obra autoral.

    A observação do conjunto do trabalho, produzido pela artista desde 2017, revela empenhamento profundo e intencional na escolha e experimentação dos materiais de trabalho. Argumenta a artista; “trabalho maioritariamente com parafina pelas suas possibilidades teórico-conceptuais que o material pode originar na imaginação do observador, como por exemplo a dimensão temporal da Escultura. A parafina em conjunto com o fogo (enquanto elemento vivo na imaginação e na memória) possibilita-me chegar perto de construir uma escultura com tempo. Uma vela consumida pelo fogo “ganha” tempo, adquire uma dimensão temporal pois torna-se mortal, passando a existir no ‘tempo’ que é o nosso e adquirindo, como nós à nascença, uma sentença de morte. O acto de ‘receber vida’ através da auto-destruição é hipotético, ocorre enquanto possibilidade, enquanto rastilho mental.”

    O indispensável alargamento do campo de experimentação das possibilidades físicas de execução não se afigura arbitrário ou casuístico porque é submetido a uma inspiração da sensibilidade e a um escrúpulo, a que poderíamos chamar ético e que a artista sugere ao explicitar no seu próprio discurso a referência à “espiritualidade“.

    O material de eleição que gera uma primeira especificidade autoral do trabalho da artista é a parafina – derretida e misturada com pigmento negro – que nos aparece como uma cera negra utilizada como suporte de desenhos riscados (Sem título – da série Invisible Drawings, 2018-2019 ), como pasta que recobre e modela outros materiais (esferovite, na série doce distância, 2017-2018; tecido, em A espera, 2019) dando-lhes uma nova textura ou, mais recentemente no caso da obra exposta Depois muito, depois pouco, depois nada, sob uma modalidade de dripping, que vai recobrindo uma espécie de corda formada por pavios entrançados. Esta diversidade de modos de utilização gera um jogo de texturas que emite um apelo sensorial e suscita uma tentação tátil; temos vontade de tocar as peças para lhes sentir a vulnerabilidade ou resistência, consistência ou fluidez, peso ou leveza, rugosidade ou suavidade, dureza ou afabilidade.

    O uso da parafina / cera e o uso de pavios de modo visível mas, muito escondido na série doce distância ou, encobertos no já referido depois muito, depois pouco, depois nada remete para o domínio das referências religiosas que, sendo nalguns casos incontornáveis, nunca são demasiado óbvias. Sobre a utilização deste material, a artista refere que “a parafina é ainda a matéria de substituição do corpo. Para que as esculturas sejam extensões de nós mesmos, sabendo que somos seres que oscilam no tempo sem o conseguir controlar ou apaziguar-se, aquelas devem procurar ser espelhos verdadeiros e, portanto, serem reflexos exatos e simultâneamente dúbios, complexos e simultâneamente simples. Porém, polir esse espelho até à nitidez, compreender o que é ser-se humano, é uma tarefa possivelmente condenada a não ter fim.”

    Campo de Flores, 2020, poderia ser visto como uma variação dos habituais suportes para a colocação de velas devocionais nas igrejas mas não deixa de permitir outras leituras mais geométricas ou com outros ecos na história da arte. Ao escolher o título Campo de Flores a artista parece sugerir uma via específica de leitura mas a ambiguidade mantém-se: são flores negras. A utilização de parafina e a sugestão “auto-destrutiva” acrescenta às obras um outro nível de vulnerabilidade ou efemeridade, já que se quisermos imaginar que não resistimos à tentação de ‘acender as velas’ a aparência das obras resultaria radicalmente alterada ou, destruída.

    No confronto com esta exposição, é possível que uma ressonância religiosa seja inevitável para um observador cuja experiência cultural inclua a participação em determinados tipos de cerimónias religiosas. Mas, para alguém que não tenha ou, não valorize tais experiências é, igualmente plausível e plenamente satisfatória uma leitura em termos estéticos e formais balizados pela tradição da escultura moderna em geral ou, pelo pós-minimalismo e a process-art , em particular.

    Uma obra como Faz aí a tua casa, 2020, pode ser abordada em relação com a forma de um oratório mas, também pode ser vista em confronto com a noção de shaped canvas ou da articulação entre pintura e objeto no âmbito de um modo de instalação, que dá prioridade ao uso da luz e aos jogos de sombras. A grande importância concedida à luz e às opções de instalação relativas ao modo de iluminar esta obra – que ocupa uma posição fulcral nesta exposição -, fazem com que adquira uma dimensão quase inefável, já que os contornos e formas que vão comandar a nossa percepção podem alterar-se com a alteração do modo de iluminação. Há uma distância perceptiva e mental entre a presença objectual da obra e o modo como a luz e as sombras a re-desenham.

    A desenvoltura no exercitamento de uma composição escultural com vocação geométrica é notória em Um momento de trégua podendo ser vista como uma combinatória de formas geométricas (romboide – cilindro – cone) que se articulam com particular argúcia com a arquitetura do espaço da galeria, aqui alterado (com a adição de uma parede), para esta exposição. Também a obra Às trinta e duas e trinta, 2020 podendo ser lida, em termos abstratos, como uma variação a partir de sólidos geométricos, não deixa de permitir associações à forma do cravo / prego.

    “(…) a arte é sempre uma desilusão. Ao virar-se para ela própria, podendo, deste modo, finalmente “conhecer-se”, não deixou, com isto, de continuar a poder propiciar experiências ditas religiosas. Assim, podemos concluir que o sagrado não foi sacrificado em favor do secular, mas, digamos, “dessacralizou-se”, tornou-se acessível, parte do mundo. A dimensão espiritual na arte não se perdeu, apenas se transformou, e a sua beleza revela-se, ou está sempre prestes a revelar-se, tanto na vastidão invisível da interioridade como na banalidade dos dias comuns”. É com estas palavras que Carolina Serrano conclui a sua Tese de Mestrado.

    Alexandre Melo

    Setembro 2020



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