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    28.10.2021—31.10.2021
    INAUGURAÇÃO: 27.10.2021
    Co-produção UMA LULIK_e FLR – Fundação Leal Rios



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    Vista de Exposição | © Bruno Lopes





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    SALTO HORIZONTAL
    INSPIRA, SUSTÉM, SOPRA

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    É necessário transcender a técnica, para que o virtuosismo se converta numa “arte sem artifício”, que brota do inconsciente. No que diz respeito ao tiro com arco, isto significa que atirador e alvo deixam de ser duas entidades opostas para se unirem numa única realidade.
    Daisetz T. Susuki, Zen e a Arte do Tiro com Arco, Eugen Herrigel

    Mon querido Diogo gentil,
    Este pequeno livro que me passaste numa pilha de fotocópias com agrafo (a mais romântica das infracções) conta e explica que o tiro ao arco, “em tempos praticado como instrumento de uma luta de vida ou morte (nem sequer sobrevivendo como modalidade desportiva)”, consiste, hoje em dia, no Japão, numa prática ritual. É entendida como tendo raízes em exercícios espirituais e, no fundo, aponta sempre para um encontro, e numa tentativa de ser apenas um com a superfície-alvo, o arqueiro aponta para si mesmo, ele é tanto o que alveja como é alvo, o que atinge e é atingido.

    A primeira coisa que reparei no segundo momento deste tríptico (tri-partido no tempo fundamentalmente), em que ouvimos o som de um disparar consecutivo de setas, foi na ausência do som que é procurado e que determina o sucesso ou da falha do exercício: o som do chão – do atrito entre matérias – ou o som do alvejo. Onde está o alvo? Foi isto uma derrota? E se a seta voar para sempre, resistir a gravidade que a quer domar e permanecer em órbita? E se, o arqueiro, ao procurar apontar para si, se vê em toda a parte? Torna-se numa fonte de setas que jorra indiscriminadamente?

    Pensei depois na primeira destas peças, que apresentaste na Zaratan: um poço sem fundo – um buraco negro numa sala e o som da água que se despenha. A relação entre estas duas deu-me dois pensamentos (que espero que me permitas) sobre a acção que se desenrola neste Event Horizon1. O primeiro rondava a ideia do tempo e da morte. E se as setas fossem disparadas a esse umbigo do nada e descessem ao fundo do poço, onde o arqueiro se via? Do que há do outro lado ninguém sabe (um jardim? um homem branco nuns portões de pérola? Setenta e duas virgens?). As setas, tal como a água, tornam-se em milhares de golden records em busca de quem quer que seja, tal como uma mensagem numa garrafa que segue as correntes que a aceitem. Um bo- cado como as palavras quando estamos sozinhos e perdemos a crença em rezas. O segundo pensamento foi sobre o filho muito amado de Vénus e Marte, Cupido e o seu trabalho como arqueiro. Este que é filho do Amor e da Guerra e os condensa em si num só. Na obra de Lucrécio sobre a fisiologia do amor, Cupido pode representar tanto o desejo humano como o instinto e impulso animal dos átomos se juntarem e formarem matéria. Pensei então nas setas furtivas da intenção de amor que não encontra o seu objecto ou o seu tempo. A solidão do Cupido é a de criar para os outros o que não consegue criar para si. (Quem nunca?/ Atire a primeira pedra). As tuas setas sem alvo tornam-se satélites, pequenas luas, do mundo.

    E esta linha traz-nos à Fundação Leal Rios, ao momento derradeiro, e a esta batalha que testemunhamos hoje. Duas deusas do contemporâneo, Vénus e Serena, símbolos de excelência no desporto que praticam, estão face a face, algures, a medir forças. Tanto tanto espaço para tanta tanta ausência. “O pó é a anulação da forma do corpo, como reduzir a pó uma escultura em gesso”, disseste tu. E também: “O campo/espaço torna-se o negativo do sujeito, a sua ausência é o negativo como no molde. É o interior do molde vazio”. Só aqui era possível esta peça, nesta arena íntima.

    O som e a imagem estão desfasados até ao limite – como na trovoada. Profetas, sábios, escribas e feiticeiros interpretavam este fenómeno meteorológico como manifestações divinas, considerados principalmente como reacção de ira contra as atitudes dos homens. É-nos negado acesso a parte da acção, ao que se passa nesse monte tão distante, no exterior da caverna alegórica. Concedes-nos a arena e a rede, essa pele do molde, o espelho que cruzam vezes e vezes sem conta. Toca-me profundamente a dimensão emocional desta peça em que, quando estas duas forças se empurram, não há dicotomia de um lado bom ou um mau, de justa ou injusta, elas são duas irmãs distintas numa tour de force como a que todos nós contemos dentro de nós: cada um espectador passivo dos seus duelos, de água contra água. E tu, Diogo, mestre Zen, negociaste a levar-nos a todos até à falésia de um buraco negro e olhar para dentro de nós.
    Com amizade, Isabel Cordovil

    1. “Event horizon” [em português, horizonte de eventos] é o termo inglês utilizado para designar a fronteira que define a região de espaço em torno de um buraco negro da qual nada pode escapar (nem mesmo a luz). Por outras palavras, a velocidade de escape de um objeto para lá do horizonte de eventos é superior à velocidade da luz.



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